"Eu não posso descartar 100% essa possibilidade", diz Riva

Todos os dias, seu despertador toca às 4h30 da manhã. Às 7 horas ele já está em seu gabinete, onde começa uma maratona de atendimento que já durou, em certa ocasião, dezoito horas seguidas. Todos os dias, pelo menos quarenta prefeitos, vereadores e lideranças de municípios o procuram em busca de ajuda para os problemas mais variados. São, em média, duzentas e cinquenta ligações diárias em seu celular.

Esses são alguns dados da rotina diária que o deputado estadual José Riva (PSD) enfrenta há mais de dezoito anos de mandatos ininterruptos no Parlamento. Não por acaso, ele se diz cansado. "Eu sacrifiquei minha família. Eu quero mudar esse ritmo", disse. 

Amado por muitos, odiado por outros, Riva virou uma espécie de unanimidade quando o assunto é não só política, mas a discussão sobre os próprios rumos de Mato Grosso.

Ele é acionado, por exemplo, várias vezes ao dia pelo governador Silval Barbosa (PMDB), a quem elogia e critica com a mesma desenvoltura. São sugestões que vão desde a articulação política até projetos e ações em logística, educação ou economia.

Dizendo-se “desestimulado” em relação à política, Riva reiterou que não disputará mais um mandato de deputado estadual. Pela primeira vez, também, admitiu que não descarta um projeto ao governo do Estado.

“É uma questão a ser avaliada. Eu não posso descartar 100% um projeto nesse sentido. Agora, não dá pra deixar de colocar o que eu penso. E eu sou muito pragmático nisso: uma disputa eleitoral, hoje, não faria bem pra minha vida; para a qualidade de vida que eu quero ter a partir dos meus 55 anos”, afirmou.

Entre um atendimento e outro, Riva recebeu a reportagem do MidiaNews na última quinta-feira. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

MidiaNews: O senhor já deixou claro que não vai disputar, de novo, um mandato a deputado estadual. Essa é a “senha” para admitir uma candidatura ao governo do Estado?

José Riva:
Eu estou com 53 anos e não tenho mais vaidade. O poder não me seduz... Sou uma pessoa que, no poder ou fora dele, sempre fui o mesmo. Eu não uso, por exemplo, segurança, motorista... Faço questão de dirigir o meu carro. O meu fascínio maior sempre foi pela disputa ao Senado. A verdade é que, hoje, eu precisaria encontrar uma motivação. Eu tenho um certo desestímulo com a situação de Mato Grosso. Confio no governador Silval Barbosa e acho que é possível fazer as mudanças necessárias. Mas, hoje, a situação do Estado realmente é preocupante, em todos os aspectos. Então, isso me leva a refletir muito... Se fosse hoje, eu não disputaria eleição nenhuma.

MidiaNews: Mas não é esse o comentário nos bastidores. Até pelo fator conjuntural: o PSD é uma das siglas com maior musculatura e capilaridade no Estado, o seu nome é massificado, não há interesse em outra disputa pela Assembléia. O governador Silval não poderá ir à reeleição. O que ainda seria necessário para uma candidatura ao governo?

Riva:
Eu, sinceramente, me acho muito preparado... Eu tenho boas ideias e Mato Grosso tem solução. Eu tenho convicção de que é possível fazer um trabalho corrigindo as desigualdades sociais que existem, e que foram tema de um livro meu. É preciso investir nessa logística, que infelizmente é capenga no Estado, nessa saúde, que é insuportável e repleta de falhas. Eu me acho uma pessoa bastante dedicada. Eu estudei bastante o Estado, mas não é isso que determina a disputa de uma eleição. É um conjunto de ações.

Midianews: Há um comentário de que o senhor não quer admitir uma candidatura porque teme ficar exposto, ou porque pode ficar inelegível, por causa de processos eleitorais a que responde.

Riva:
As pessoas falam muitas coisas; é um direito. Há dias um articulista escreveu que eu estaria interessado em ser governador “tampão”. A tese dele é que o Silval sairia para ser candidato em 2014 e o Chico Daltro, vice-governador, ao invés de assumir, renunciaria para eu, na condição de presidente da Assembléia, assumir o Palácio Paiaguás. Eu não tenho intenção nenhuma de ser governador “tampão”. Isso é uma piada. Se eu quisesse ser governador, eu iria disputar um mandato pra ser governador eleito. O Chico Daltro não aceitaria esse jogo; muito menos eu. Eu jamais faria isso, em respeito ao Chico, aos meus princípios e, sobretudo, em respeito à sociedade, que o elegeu. Eu nunca fui de tirar ninguém na “cotovelada”.

"Hoje, a situação de Mato Grosso é
preocupante, em todos os aspectos"

MidiaNews: Então o senhor admite a disputa?


Riva: A melhor maneira de eu chegar ao governo do Estado seria construir um projeto e ser candidato a governador. Mas eu, sinceramente, não penso nisso. Vamos dizer que todo o cenário seja favorável. Que tudo conspire a meu favor. Que eu tenha estímulo em todos os aspectos, que minha saúde esteja em dia... Aí é uma questão a ser avaliada. Eu não posso descartar 100% um projeto nesse sentido. Agora, não dá pra deixar de colocar o que eu penso. E eu sou muito pragmático nisso: uma disputa eleitoral, hoje, não faria bem pra minha vida; para a qualidade de vida que eu quero ter a partir dos meus 55 anos.


Riva recebe demandas de índios na Assembléia
MidiaNews: Mas o senhor não admite que o contexto político lhe seja favorável?

Riva: Olha, eu estou surpreso com a força do PSD em Mato Grosso. Eu falo, sem medo nenhum, que o partido se consolidou e tem a base mais bem preparada do Estado. Temos bons aliados em outros partidos, então nós temos que aguardar o tempo. Mesmo com a decisão de que, se fosse hoje, eu não disputaria. Descartar 100% uma candidatura ao governo seria, no mínimo, brincar com a inteligência das pessoas. Porque todo mundo sabe que o político sempre tem uma possibilidade de continuar na política, mesmo quando ele fala que vai parar. Eu, particularmente, vou pensar muito. É uma decisão que eu vou tomar conversando com meus filhos, meu principal “diretório”, com meus amigos, minha família... A gente vai discutir isso.

MidiaNews: Em mais de dezoito anos como parlamentar, quais as mudanças o senhor percebeu em relação ao contexto social de Mato Grosso?

Riva:
O Estado, sem dúvida nenhuma, ao longo desses anos, deu um grande salto. Eu costumo dizer que o grande problema de Mato Grosso foi a falta de planejamento, foram os governantes não se atentarem para o fato de que de um Estado que crescia como o nosso, a índices chineses, precisava de um planejamento rigoroso. E que o Estado buscasse atender as demandas em função desse crescimento. É duro você imaginar que Mato Grosso, hoje, tem menos leitos hospitalares do que tinha há vinte anos. É duro imaginar que a logística do Estado foi preparada num momento em que o agronegócio não estava no seu auge... Que ela fosse suportar a realidade de hoje. É logico que tem rodovias importantes, pavimentadas há muito tempo, que inclusive hoje precisam ser reconstruídas. É lógico que a logística não é a esperada, mas eu acho que o processo de privatização da Cemat, da telefonia, a extinção do Bemat, que era um câncer que corroía as finanças do Estado, contribuiu muito. Mato Grosso cresceu em todos os aspectos, mas vai crescer muito mais nos próximos dez anos. Aliás, vai crescer em dez anos o que levou trinta anos para crescer.

"A logística do Estado é capenga;
a saúde é insuportável e repleta de falhas"



MidiaNews: Quais os principais gargalos ao desenvolvimento de Mato Grosso?
Riva: Acho que o grande gargalo do Estado é o planejamento público, que hoje é manco, mas precisa ser eficiente. Mato Grosso precisa ser planejado, o governador Silval não pode ser responsabilizado por todo esse estrangulamento. Mas ele será responsável se não tomar uma providencia para preparar Mato Grosso para o futuro, para esse crescimento que vamos enfrentar nesses próximos dez anos. Então, é preciso melhorar a logística, oferecer uma estrutura melhor de saúde para a sociedade, colocar a Unemat no lugar que ela merece, como instrumento para a formação de novos profissionais, de cidadãos que tenham oportunidades de crescer. A questão da segurança também é muito preocupante... Enfim, são áreas essenciais que precisam melhorar muito.

MidiaNews: Continua a lhe preocupar o fato de Mato Grosso ainda se amparar economicamente na produção primária?

Riva:
Claro. Mato Grosso precisa de uma política mais audaciosa de industrialização. Eu fico triste quando olho para os incentivos fiscais e vejo que o percentual maior está na pecuária, com 34% aproximadamente. E em um setor que não beneficia o pecuarista, beneficia muito mais os frigoríficos do que os pecuaristas. Realmente é preciso investir na industrialização. Não adianta Mato Grosso participar com 34% do superávit primário da balança comercial. Isso é uma ilusão, um engano, que mostra uma falsa ideia do crescimento da economia. O que precisamos é agregar valor, gerar renda, gerar emprego - e isso só vai ser feito com a industrialização do nosso produto. Acho que o Estado tem que ser mais audacioso, tem que ser mais rigoroso com aqueles que vem trazer produtos industrializados para cá. Se usufrui sem investir aqui, está penalizando um segmento empresarial forte. Quando a gente permite isso aqui, muitas vezes perdemos poder de competir com produtos de fora; quer dizer, deixa de produzir aqui porque se inviabiliza. Então é preciso reanalisar essa politica de incentivo. Eu sou a favor desse incentivo, desde que ele beneficie setores, e não empresas. Até porque já há setores que já não precisam desse incentivo, e outros precisam ser alavancados.

Durante reunião com o governador Silval e deputados
MidiaNews: Como o senhor avalia a questão da lei Kandir?
José Riva: É o grande problema de Mato Grosso, porque essa lei penaliza os Estados produtores, como o nosso. Perdemos, em média, R$ 1,8 bilhão por ano. O governo Federal dá esmola com o chapéu alheio e, além disso, a compensação é de apenas 10% a 20% daquilo que o Estado perde... Somos um Estado penalizado. Eu falo que a gente fica elogiando o governo Federal e Mato Grosso pagou no ano passado R$ 1 bilhão de dívida - e vai pagar esse ano R$ 1,35 bilhão. Infelizmente, nós temos poucos eleitores e isso reflete muito perante o governo. Nosso colégio eleitoral é insignificante perto de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Mas eu acho que o governador Silval e a nossa bancada federal têm que ser mais duros com o governo Federal. Por que isso, pra mim, é esmola.

MidiaNews: Apesar da proximidade com o governador Silval Barbosa, o senhor tem sido um crítico bastante incisivo. Qual a sua avaliação sobre o atual governo?

José Riva: O governador Silval é um homem extremamente capaz, uma pessoa articulada, de diálogo, humilde... Mas às vezes, talvez pelo acúmulo de suas tarefas, ele tem deixado de olhar para questões cruciais. Há, por exemplo, secretários desestimulados para o trabalho, cansados, que falam abertamente que não veem a hora de sair. Eu creio que isso é inadmissível. Essas pessoas precisam ser trocadas. O Estado precisa passar por uma reforma, e o governador diverge dessa opinião, ele acha que uma reforma economizaria muito pouco...

"Eu não tenho intenção nenhuma de ser
governador 'tampão'. Isso é uma piada"



MidiaNews: Na sua opinião, existe muito “puxa-saco” nesse governo?

Riva:
Puxa-saco tem em todo lugar... Eu tenho o Silval como amigo, e só o alerto como amigo. Já o puxa saco-bate nas costas, fala que está tudo certo, mas é esse tipo de pessoa que te enterra. Eu sou amigo, e o governador sabe que, em qualquer momento de dificuldade, quando precisar, eu estarei aqui e serei seu aliado. Agora, eu não posso ser um aliado que fala amém para as coisas erradas. Eu tenho que ser um aliado que, muitas vezes, previna, alerte e dê sugestões para que o governo tome o caminho certo. Não sou dono da verdade, muitas vezes eu posso estar equivocado, mas nesse momento eu entendo que o Estado precisa passar por uma reforma. Eu tenho convicção de que o Estado pode diminuir a sua estrutura, o tamanho da máquina é desproporcional e a falta de planejamento ocasionou todo esse estrangulamento. Se o governo fizer uma reforma, e mexer em peças chaves, repensar a sua equipe, as coisas melhoram.

MidiaNews: Quem são os secretários “cansados” que o senhor citou?

José Riva:
É difícil você citar nomes, mas acho que é hora do governador repensar sua equipe, repensar essa composição do governo, criar estímulos para as pessoas que assumirem trabalhar pra valer. Repensar esse modelo de “núcleo sistêmico”, que é uma teia de aranha e atrapalha a vida de muitas pessoas de produzir... Aliás, nisso eu tenho que concordar, tem secretário que reclama com razão.

MidiaNews: Mas o núcleo sistêmico, por outro lado, não dá mais transparência e evita a prática de corrupção?

Riva:
Eu acho que tem que aperfeiçoar o controle das contas em todos os aspectos. Acho que está aí o Ministério Público Estadual, o Tribunal de Contas e a Assembléia para fazer essa fiscalização. Com o núcleo sistêmico ou sem, se quiser fazer errado vai fazer. Assim como se quiser pegar quem fez errado, vai pegar, porque os órgãos de controle, internos e externos, hoje estão muito mais eficientes. O TCE, por exemplo, tem agido com muita lisura e com muita competência na fiscalização.

O deputado cumprimenta família no interior
"O governo Federal dá esmola com o chapéu alheio. O Silval tem que ser mais duro"


MidiaNews: Eu gostaria que o senhor continuasse na avaliação sobre o governo.


Riva:
Sim. Eu acho que o governador precisa ouvir um pouco mais os críticos. Quando você tem um aliado que te alerta, você deve agradecer. Eu acho que o governador é competente, não seria governador se não fosse, porque para chegar ao governo precisa de um conjunto de situações. Não é só dos apoios que você tem não, precisa ter qualidades, e o Silval tem qualidades. Mas ele precisa olhar um pouco mais ao seu redor, na sua periferia, quer dizer, o governo tem que ir para a base conversar com as pessoas, repactuar os compromissos. Se não deu para honrar do jeito que foi combinado, repactue. Eu acho que o governador talvez tenha dificuldade em função do número de partidos que o apoiaram, das composições políticas. Isso acaba “amarrando” muita coisa. Eu acho que é hora do governador chamar os partidos e cobrar desprendimento, no sentido deles abrirem mão de certos espaços onde a coisa não está funcionando.

MidiaNews: Nas visitas que o senhor faz no Interior, qual tem sido a percepção da população em relação ao governo?

Riva:
Há uma certa insatisfação. Uma certa impaciência porque o benefício não está chegando lá na ponta, nos municípios. O governador é um homem de atitude e decisão, que já foi prefeito, deputado, presidente da Assembléia, primeiro-secretário, vice-governador. O problema é o estrangulamento do Estado, que eu já citei. Então faltam investimentos nos setores essenciais. O governador faz um trabalho importantíssimo junto ao governo Federal no sentido de alavancar recursos, de renegociar as dívidas. Com essa leva de investimentos que está sendo feito na Capital, em função da Copa do Mundo, ele vai recuperar a sua imagem, isso não preocupa muito. Mas, no geral, existe um desgaste sim, porque todos creditam esse estrangulamento da máquina ao governador Silval. Mas é um equívoco, se há poucos investimentos, é por situações que veem lá de trás. Ninguém consegue deteriorar um Estado em um ou dois anos.

"Eu alerto o Silval como amigo. Já o puxa-saco bate nas costas e fala que está tudo certo. É esse tipo de pessoa que te enterra"

MidiaNews: Seria exagero dizer que a atual gestão está encobrindo erros de governos anteriores?


Riva:
Eu entendo que o Silval está um pouco tímido com relação a isso. Na minha opinião, ele tinha que ser um pouco mais agressivo no sentido de mostrar para a sociedade a realidade das coisas. Eu já cobrei isso. Já disse: “Governador, coloque as coisas na mesa, não é questão de atacar seus antecessores, mas de mostrar que há muitos problemas que foram herdados”. Isso não é atacar. Até porque eu vejo o governo Blairo Maggi como muito importante, pois realmente quebrou alguns paradigmas. Mas, é lógico, não foi um governo só de acertos. Eu acho que teve maios acertos que erros, mas que não deixou o Estado 100% saneado... Isso realmente não ocorreu, mas o Blairo deixou Mato Grosso em condições de continuar caminhando. Agora, o ideal é que o Silval mostre que esse estrangulamento não se deu no governo do Blairo, nem no dele. Foi construído ao longo de muitos anos e nós temos que enfrentar isso, corrigir as distorções da falta de planejamento, em função do passado, e planejar os próximos dez, vinte anos.

MidiaNews: Mas, mesmo com tudo isso, na sua opinião, trata-se de um bom governo?

Riva:
É logico que não dá pra você qualificar de bom um governo com tantos problemas. É um governo que está tentando acertar, mas que ainda falta muito para acertar.

MidiaNews: Mas a gestão está sob controle?

Riva:
Eu diria que, se o governador continuar nesse rumo, ele pode perder o controle. Ele tem que repensar a questão da reforma, como eu já disse, a renovação, não só em secretarias, mas em cargos importantes, para reoxigenar o governo e conseguir investimentos e avanços em áreas estratégicas.

MidiaNews: Recentemente o senhor disse que considera sua filha Janaína uma espécie de herdeira política. Como o senhor se sente diante do interesse dela pela politica?

Riva:
Eu tenho três filhos maravilhosos, a Janaína a Jéssica e o Juninho. Mas a Janaína é a que tem mais aptidão política, que se interessa mais em me acompanhar. Sem dúvida nenhuma, eu a acho mais qualificada que eu. Inclusive ela se preparou melhor. Eu enfrentei todos os desafios da minha vida com o segundo grau, fiz o meu curso superior agora, recentemente. Então, é lógico que eu vejo com muito orgulho esse interesse dela. Se ela quiser ser deputada, vai contar com todo meu apoio e da família.

MidiaNews: O senhor tem mostrado um certo cansaço em relação à política. Também é conhecido pelo ritmo intenso a que se dedica ao trabalho. Vale a pena?

Riva: Valer a pena, vale. Sem dúvida, é muito gratificante você ver o resultado do seu trabalho melhorar a qualidade de vida de muitas pessoas, ver a sua região prosperar, o seu Estado melhorar. Mas é lógico que você precisa estar estimulado para esse trabalho. Eu sempre disse que ficaria na política enquanto eu achasse que tinha algo a acrescentar, que eu pudesse me dedicar 100%. E chegou o momento de eu refletir sobre isso. Já não me acho mais em condições de me dedicar da forma com que eu sempre me dediquei. Eu já cheguei a ficar na Assembleia 18 horas initerruptamente; é realmente um trabalho estafante. Você trabalha durante a semana e, nos fins de semana, existe uma cobrança da base muito grande, de você estar presente. E isso tem sido praticamente impossível... Porque a Assembleia toma o seu tempo de segunda a sexta-feira, e você tem o sábado e o domingo para visitar a base. Então não sobra um dia sequer para a família. Sem isso, sem um dia para o descanso, estresse é inevitável.

"Não dá pra você qualificar de bom um governo com tantos problemas"


Com a filha Janaína, "herdeira" política
MidiaNews: Não é um preço muito alto a se pagar?


Riva:
Eu analiso da seguinte maneira: ao longo desses anos, eu tenho feito isso por amor à política, ao meu Estado, ao objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Eu me aprofundei nos estudos, da melhor forma que eu pude, para buscar entender a complexidade de Mato Grosso, das desigualdades, das distorções... Mas o nível da desigualdade, por exemplo, não é mais o mesmo. Trabalhamos muito com base em um estudo do nosso gabinete, onde procuramos nortear nossas ações parlamentares... Então hoje, é lógico, eu não ficaria aqui se não tivesse condições de me dedicar à função parlamentar. Mas eu refleti e decidi que não disputo mais uma eleição para deputado estadual.

MidiaNews: Isso tem alguma relação com as ações judiciais às quais o senhor responde?

Riva:
Às vezes, as pessoas falam que isso, de não disputar mais a estadual, é um jogo meu, porque eu posso estar inelegível, com a ficha suja, mas não tem nada a ver. Eu acredito piamente que os processos, principalmente os eleitorais, não serão motivo para me deixar inelegível. Eu tenho confiança que uma avaliação de colegiado, com o Tribunal Superior Eleitoral, com ministros preparados, me inocentará. E acredito que esses processos todos da Assembleia, que a maioria dos processos, foi criada para me desgastar.

"Eu não desviei dinheiro público, eu não fiz lavagem de dinheiro"

MidiaNews: O senhor não desviou dinheiro público?


Riva: Não. Eu não desviei dinheiro público, eu não fiz lavagem de dinheiro. A Assembleia vivia uma realidade adversa. Quando eu cheguei à Assembleia, ela devia quase dois orçamentos anuais; essa realidade hoje é bem diferente. Nós saneamos a Assembleia e isso tem um custo. E o custo foi esse o desgaste que nós enfrentamos até hoje, infelizmente. Então, eu tenho tranquilidade quanto a isso e mostrarei que não houve nada de errado. A minha questão é essa mesmo: se eu estarei 100% em condições de continuar na politica. Eu não quero que alguém diga: “Olha, o Riva mudou. O Riva não vem mais cedo, não se dedica mais, ele não vai mais às bases". Então, é o momento de eu refletir sobre isso, de buscar uma qualidade de vida melhor... Sem demagogia, se eu estivesse fora da política, eu ganharia muito dinheiro, gastaria menos e, sem dúvida, teria mais tempo para a minha família, meus amigos e, consequentemente, melhoraria minha qualidade de vida.

MidiaNews: Como é a sua rotina diária?

Riva: Hoje, por exemplo, eu levantei às 4h35 da manhã para fazer uma caminhada. Eu só encontro esse horário para caminhar, e ainda sou interrompido por telefonemas às 5 horas da manhã. Religiosamente, antes das 7 horas eu estou na Assembleia. Em muitos dias, eu não encontro tempo para almoçar. Tem dias que eu não encontro tempo para sair daqui e ir a um jantar de família. Isso faz a gente refletir. A sobrecarga é grande porque eu passei a ter uma atuação em todo o Estado. Eu sou procurado por pessoas de todos os municípios, querendo solução para os problemas.

"Eu já cheguei a ficar na Assembleia 18 horas ininterruptamente; é realmente um trabalho estafante"

MidiaNews: Mas não seria possível diminuir esse ritmo?


Riva: Eu não me sinto no direito de não atender as pessoas que me procuram. Eu não conseguiria não dar atenção para essas pessoas que eu cativei e cultivei durante muitos anos. É raro o dia em que não recebo ligações de 30, 40 municípios. É uma demanda muito grande. Quando estou em uma reunião de uma hora, sem atender celular, se acumulam mais de 50 ligações. É quase impossível dar conta de uma demanda dessa. E ainda tem gente que acha que você não quer atender, que você está postergando. Mas isso não é do meu perfil. Eu aprendi, desde muito cedo, que uma das formas de você resolver o problema é correr atrás dele.

MidiaNews: O senhor já se sentiu impotente diante dessa demanda?


Riva: É difícil... Eu trabalho como um escravo, procuro dar atenção a todo mundo e, em muitos casos, se constrói uma imagem de que eu não estou correndo, me dedicando. Faz meses que eu não passo um final de semana em Cuiabá. Na semana passada, fizemos encontros em Diamantino, Nortelândia, Barra do Bugres, Tangará da Serra, Cáceres, Pontes e Lacerda, Araputanga, Rondonópolis, Juara e Juruena. Aí você chega, na segunda-feira, e começa tudo de novo. Daí, tem gente que vem aqui e fala: “Ô, deputado, o senhor podia tirar um domingo, um sábado e vir aqui na minha cidade, sair um pouco de Cuiabá” (risos)... Eu explico que nós não ficamos em Cuiabá nos fins de semana. Mas viajar ainda é mais leve. Durante a semana as demandas são mais exaustivas, tem demandas administrativas, existe ainda uma sobrecarga maior em função de alguns problemas no governo. Quando encontramos problemas - e nesse momento, tenho que admitir, nós temos muito problemas -, a sobrecarga da Assembleia é maior, porque a sociedade vem pra dentro da Assembleia e isso acaba te tomando muito tempo.

MidiaNews: Como está sua saúde?

José Riva: A questão da saúde é um aspecto que me incomoda muito, porque os meus tratamentos são sempre uma correria. Todo mundo sabe que eu enfrentei problemas sérios de saúde. Mas, graças a Deus, está superado. Quanto a gente passa dos 50 anos, acumula um certo desgaste. Eu, por exemplo, me obriguei a encontrar esse tempo, a me levantar às 4h30 da manhã, pra fazer uma caminhada. Fiquei dez anos sem fazer nenhuma atividade física e isso repercute na sua atuação, em tudo. E isso tem melhorado muito, mas você chega à beira do estresse, porque se você levanta as 4h30 e deita à meia-noite, você dorme quatro horas e meia e o corpo não suporta. Então, eu não sei fazer as coisas pela metade. Mudar o meu ritmo dificilmente eu vou mudar. Mas é um ritmo de vida que poucos enfrentam, e eu gostaria, sinceramente, de mudar isso.

Com o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab
MidiaNews: O senhor tem algum arrependimento na questão familiar?


José Riva: Com certeza eu sacrifiquei a família, sacrifiquei a minha esposa Janete, sacrifiquei meus filhos, me distanciei deles... Eu sou uma pessoa muito dependente dos meus filhos; não consigo ficar longe deles, e isso foi muito ruim pra mim. Imagina, o aniversário do meu filho está se aproximando eu não vou poder comemorar com ele, porque no dia já tenho compromisso na base. E a base cobra muito a minha presença. É uma relação que eu construí e eles me cobram isso. São 141 municípios, se você visitar um município a cada seis meses, significa que você tem que ir 282 vezes ao ano. É fácil fazer esse cálculo, mas dificilmente você vai conseguir ir. Eu já cheguei a ir ao mesmo município doze vezes num ano; não é fácil. Mas, voltando à questão, não vou dizer que seja arrependimento, mas é um sentimento de ausência que, infelizmente, influenciou no meu relacionamento conjugal, influenciou na minha relação com os meus filhos. Mas, graças a Deus, hoje a relação com eles é maravilhosa.

Do: Midianews.com.br
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