Estudante prevê terremotos, mas o assunto não é levado a sério

O impossível e a curiosidade foram os principais indutores da equação formulada pelo técnico e estudante de Letras da Universidade de Cuiabá (Unic), Aroldo Maciel, 40 anos, para conseguir antever onde e quando terremotos vão ocorrer. 

Muitas vezes foi considerado um bruxo, uma espécie de vidente, mas nunca um estudante curioso que conseguiu algo que em mais de um século cientistas não conseguiram fazer: saber quando a terra vai tremer.

Tudo começou numa conversa com um amigo que disse que ser impossível prever quando os terremotos pudessem ocorrer. “Eu questionei se era tão difícil assim e passei a pegar livros de geologia e geofísica. Vi que tinha padrões, ciclos e imprimi um banco de dados de 2004 a 2010”, disse.

Após a leitura desses livros e observação da repetição de padrões, Aroldo chegou a uma fórmula que consiste num algoritmo de triangulação de dados. Com essa fórmula, ele consegue prever dias antes que um terremoto vai atingir e qual a magnitude na escala Richter, que calcula a força e os estragos que o abalo vai causar.  

Aroldo percebeu, também, que os sismos têm rotas. Se a terra treme na Califórnia, o mesmo deve ocorrer no Chile ou no Peru. Ele utilizou mapas para os cálculos, sem qualquer tecnologia de ponta. 

Aroldo concluiu, então, que são mais de 80 sismos por dia. E, depois que chegou à fórmula, procurou amigos de algumas faculdades, e um doutor disse que era impossível prever os cataclismas.

“A ciência estava atrás disso e tinha que ter muita leitura para descobrir isso. Eu comecei a postar na internet depois que repetiu, e vi que tinha oportunidade de documentar isso”. 

"Fui muito massacrado, recebi muita crítica, falavam que era muita publicidade. Quero muito comprovar isso, que não é preciso ser doutor para enxergar uma coisa que esta aí, na internet. Acho que só ter me subestimado vale fazer o impossível"


Com a ajuda de amigos criou uma conta no Twitter em que fazia previsões diárias para confirmar os padrões. Dentre os acertos, estão os tremores em Japão, Espanha, Turquia e um terremoto de 7.0 de magnitude no Chile. 

“Este terremoto levou o projeto a levar certa fama. Fui convidado a dar explicação com algumas centenas de acertos, o que começou a chamar a atenção do professor da Universidade de Brasília (UnB), Georg Sand França, que está no segundo PhD e está terminando de escrever o artigo completo”.

Há dois anos, Aroldo é aluno especial do Núcleo de Pesquisa de Sismicidade Induzida Intraplacas da UnB. Ele tem sido orientado a não criar mais polêmicas e se afastar da TV e das redes sociais. Por isso, a conta do Twitter deixou de ser atualizada.

Aroldo tem se empenhado agora em fazer artigos sobre as 50 grandes regiões sísmicas do globo terrestre. Por meio do modelo criado por ele, é possível avaliar quando a terra vai tremer.

Ele fez relatório sobre a Califórnia (EUA), Peru e Chile, depois Ilhas Virgens, Espanha e Portugal. No próximo ano, ele viaja à Turquia para apresentar o relatório elaborado para aquele país.

Distante das câmeras de TVs, ele tem procurado utilizar das armas da própria ciência para provar que seu modelo é eficaz. Há dois anos, quando ganhou fama pelas suas previsões, ele e seus amigos criaram um grupo, o Quake Red Alert (Alerta Vermelho de Terremotos). 

Contudo, o grupo já acabou, sem trazer nenhum resultado financeiro aos membros. Talvez o reconhecimento da contribuição para a humanidade do trabalho desenvolvido por Aroldo Maciel chegue após sua morte, ou no máximo ganhe um título de doutor honoris por causa pelo trabalho desenvolvido.

“Ainda não dei uma contribuição para a humanidade, ainda não foi comprovado o sistema que estamos usando”, contou Aroldo, ao revelar que buscou uma antítese para desenvolver o projeto.

Em julho deste ano, ele apresentou sua descoberta no 13º Congresso Mundial de Pesquisas Ambientais, Saúde e Segurança (SHEWC – sigla em inglês) na cidade do Porto, em Portugal.

Para o presidente do Conselho de Pesquisas em Educação e Ciências (Copec), Cláudio Rocha Brito, coordenador geral do SHEWC, a descoberta de Maciel “é de grande ajuda não só para avisar a população, não gerar pânico, mas para ficar preparados para o evento. Muitas medidas podem ser adotadas de modo a prevenir possíveis mortes e tornar os custos de uma catástrofe mais baixos e principalmente os das vidas humanas, que são preciosas”. 

Brito prevê que, em algum tempo, a teoria da migração sísmica será “ferramenta científica que levará adoção de rotinas que contribuirão para a diminuição dos impactos de abalos de grande magnitude, ou seja, para a diminuição de vítimas e de custos não só para os cofres públicos como também para o cidadão”.

Para o geólogo peruano, Júlio Zavala, 52, que há um ano e seis meses faz parte do grupo que acompanha as previsões do QRA, o tema “terremoto é muito delicado”. “Em geologia se trabalha com probabilidade” e os cálculos de Maciel têm entre 85% e 90% de acertos. Os 10% restantes ainda são considerados específicos demais para serem ditos com a observação. 

A descoberta de Maciel é, na concepção de Zavala, mais um “meio de avisar as autoridades sobre os abalos, e estas devem se responsabilizar pelas ações”. Medidas como a “construção de edifícios antissísmicos e placas com indicação de lugares seguros no momento de pânico” são exemplos de como ajudar na prevenção de maiores problemas, avalia.

MidiaNews
Há dois anos, Aroldo é aluno especial do Núcleo de Pesquisa de Sismicidade Induzida Intraplacas da UnB.
Para garantir sua descoberta para a história, Aroldo publicou, em dezembro de 2012, um artigo intitulado “Is There an Earthquake Migration Global Pattern?” (Existe um Padrão de Migração Global de Terremotos?), que foi defendido pelo acadêmico no Congresso Mundial de Ciência e Tecnologia de Geofísica, “AGU Fall Meeting” 2012, em São Francisco, Califórnia (EUA).

Erros e acertos


Nos três anos que passou publicando avisos de terremotos no Twitter, ele conta que nunca errou sobre onde os terremotos iriam ocorrer. A distância e o horário foram os impeditivos de um acerto mais exato. “Passa de 80% o índice de acerto. O erro geralmente é de 200 km de onde o local tremeu ou horas depois do previsto”.

Como a comunidade científica mundial não dá crédito para leigos sem títulos acadêmicos, Aroldo fez vestibular para Engenharia Ambiental, para ganhar mais credibilidade junto aos cientistas e dar condições de respaldar o trabalho desenvolvido. 

“Fui muito massacrado, recebi muita crítica, falavam que era muita publicidade. Quero muito comprovar isso, que não é preciso ser doutor para enxergar uma coisa que está aí na internet. Acho que só ter me subestimado vale fazer o impossível”.

Para quem pensa que ele parou por aí, Aroldo mostra que tem uma curiosidade quase crônica e insaciável. Agora ele mudou de ramo. O técnico está num grupo de pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) com partículas subatômicas. “Eu tenho curiosidade, a informação está livre”.
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