Acusação revela como funcionava "esquema" de Arcanjo

Após o depoimento de João Arcanjo Ribeiro e um intervalo de cinco minutos, teve início a fase de debates entre defesa e acusação no julgamento do ex-bicheiro, acusado de ser o mandante do assassinato do empresário Sávio Brandão, em 30 de setembro de 2002.

A defesa do "Comendador" é feita pelo advogado Zaid Arbid. Na acusação, atua o promotor João Gadelha, do Ministério Público Estadual.

Arcanjo negou, durante seu interrogatório no Tribunal do Júri, que tenha qualquer ligação com o assassinato do fundador do jornal Folha do Estado.

O Júri teve início nesta manhã, contando com o depoimento de quatro testemunhas – três de acusação e uma de defesa.

Confira a seguir os lances do debate entre defesa e acusação:

Promotor João Gadelha inicia o debate e desenha esquema comandado por Arcanjo (Atualizado às 16h05)

O promotor João Augusto Veras Gadelha iniciou o debate falando sobre os 11 anos de espera para o julgamento de Arcanjo. Ele ainda lembra que se trata de um crime de mando.

“Quatro pessoas já foram condenadas pelo crime: Hércules, Célio, João Leite e Fernando Belo”, disse.

Reprodução
Gadelha desenhou "pirâmide" do esquema comandado por João Arcanjo em um quadro branco
Ele relembrou que as investigações começaram após divulgação do relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ligada à Presidência da República, sem relação com o Poder Judiciário.

“Ela abrange o Poder Nacional. O poder dele [Arcanjo] trouxe os agentes da Abin para vir a Mato Grosso. Não se trata de uma inveja local, isso teve nascedouro na Presidência da República”, disse.

Gadelha fez a comparação da Abin com a CIA, nos Estados Unidos, Mossad, em Israel, SSI – Serviço Secreto Britânico –, e a antiga KGB, da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A matéria sobre o relatório da Abin saiu no O Globo, que se esgotou em poucas horas. O único jornal que repercutiu foi a Folha do Estado, mostrando o poder paralelo de João Arcanjo Ribeiro na época.

“As pessoas o temiam”, afirmou Gadelha.

Gadelha explica por que não há provas diretas contra Arcanjo (Atualizada às 16h18)


Em sua explanação, João Gadelha disse que manter jogo do bicho implica em prática de crimes de sangue.

“Ele pode não ter sujado suas mãos, mas mandado outros fazerem”, disse.

Usando um quadro branco, o promotor explicou que, em crimes de mando, o mandante se “encastela” e não tem contato com os executores.

Gadelha desenhou uma pirâmide mostrando o grau de cada um dos envolvidos na morte de Sávio Brandão dentro da organização criminosa e como as ordens do ex-bicheiro eram dadas.

“O Arcanjo não tinha comunicação com os pistoleiros, mas com o sargento Jesus e o João Leite”, explicou.

"Quem é inocente não vai querer esperar 11 anos para ser levado a júri, mesmo sendo inocente"
O esquema para matar Sáviuo Brandão não deu certo, segundo Gadelha, porque Hércules não aceitou fazer o crime fora do Estado, justificando rque não conhecia a cidade e poderia ser uma presa fácil de ser pega.

“Antes, quando você queria matar alguém em Mato Grosso, você trazia pistoleiros de fora. Quando ia matar alguém em outro Estado, levava os pistoleiros para o outro Estado. Sávio era para ter sido assassinado no Rio de Janeiro”, disse Gadelha.

Gadelha questiona a razão para a defesa de Arcanjo protelar o julgamento (Atualizada às 16h25)


O promotor questionou o fato da defesa de João Arcanjo Ribeiro protelar o julgamento, se ele realmente é inocente.

“Quem é inocente não vai querer esperar 11 anos para ser levado a júri, mesmo sendo inocente”, disse.

O promotor afirmou ainda que, a despeito do que Arcanjo alegou, de que não estava sendo atingido pelas reportagens publicadas pela Folha do Estado, Sávio Brandão estava incomodando o ex-bicheiro.

“Ele estava incomodando sim, porque estava cobrando providências para ter a paz que nós temos hoje. E a paz que nós temos hoje sobre o crime organizado custou a vida desse jornalista. Ele [Sávio] pedia providências das autoridades federais para conter o crime organizado em Mato Grosso”, disse.


"Se perguntarem: viram arcanjo matando? Vão falar que não. Quem não quiser sujar a mão de sangue, paga."
Promotor explica por que casos de mando não têm provas diretas (Atualizada às 16h36)

João Gadelha disse que essa é a primeira vez, durante os seus 22 anos de Ministério Público, que ele vê alguém “passar recibo” de assassinato. No momento, ele leu para os jurados o bilhete encaminhado pelo ex-soldado Célio Alves ao João Leite.

O irmão de João Leite passou R$ 38 mil para o irmão do Célio e mais R$ 30 mil para o Hércules, e “foi abandonado à própria sorte”.

“O único refugio foi voltar para a casa da mãe”.

Gadelha lembrou que Hércules confessou o crime para o Gaeco e sustentou a confissão por outras quatro vezes.

O promotor mostrou como funcionava os crimes de pistolagem desde 1997 até a morte de Sávio Brandão em 2002.

“A alta e baixa pistolagem era comandada por alguns integrantes da Polícia Militar”, disse. 

No quadro, ele começou relatando desde o atentado ao delegado Gil, o segurança de Valdir Piran, Ildeo, Mauro Manhoso, atentado e depois a chacina do sargento Jesus, mortes de Rivelino Brunini, Valdir Pereira, Jose Waldime e Sávio Brandão.

“O Hércules acha que ele não faz mal nenhum ao matar. Ele acredita que quem fez mal foi quem mandou. Mas contra essas pessoas [mandantes] você tem provas indiretas e não provas diretas. Todo mandante nega. Houve delação do Hércules quando ele foi abandonado”, disse.

"Qual a credibilidade do depoimento do Hércules diante do depoimento do senador Pedro Taques? Ele foi eleito pelo o que ele fez"
Gadelha afirmou aos jurados, ainda, que não há motivos para que o senador Pedro Taques e o delegado Luciano Inácio tenham inventado que Arcanjo mandou matar alguém.

“Se perguntarem: viram arcanjo matando? Vão falar que não. Quem não quiser sujar a mão de sangue, paga. [...] Qual a credibilidade do depoimento do Hércules diante do depoimento do senador Pedro Taques? Ele foi eleito pelo o que ele fez. O depoimento de Hércules, depois de depor quatro vezes, não[tem credibilidade]”, disse.

O promotor ainda tentou desqualificar o depoimento dado pela jornalista Maria Luiza Clarentino, de que Sávio estaria sendo ameaçado por pessoas no Norte do Estado.

"Não tem pé nem cabeça o que essa mulher veio falar aqui", disse.

"Mato Grosso estava se transformando numa Colômbia pantaneira", diz promotor (Atualizada às 16h51)


Segundo a acusação, o acerto do crime de Sávio Brandão foi tabulado entre Célio e João Leite e seria estimado em mais de R$ 85 mil. Porém, Hércules recebeu apenas R$ 30 mil do que foi acertado. A motivação do crime seria apenas as matérias veiculadas pelo jornal Folha do Estado.

“A maioria dos jornalistas morre na mão de poderosos, contra a liberdade de expressão. Não é por coisa pequena”, disse.

Gadelha destacou que a cada um mês no Brasil, um jornalista é assassinado.

"Mato Grosso estava se transformando em uma Colômbia pantaneira. Arcanjo era um homem temido, não era simplesmente um 'negão' de segundo grau, mas alguém que recebeu uma comenda"
"Quem vai morrer é o jornalista que denuncia", afirmou.

Sávio teria morrido por ter afrontado Arcanjo com as reportagens denunciando os esquemas do ex-bicheiro.

"Mato Grosso estava se transformando em uma Colômbia pantaneira. Arcanjo era um homem temido, não era simplesmente um 'negão' de segundo grau, mas alguém que recebeu uma comenda, ele não era qualquer um”, disse.

Gadelha ressaltou que foi a Justiça Federal quem se levantou contra Arcanjo e, depois que Rogério Salles deu apoio, teve início o desmantelamento do crime organizado.

Promotor destaca psicopatia de Arcanjo durante acusação (Atualizada às 17h)


Na sua conclusão, o promotor João Gadelha lembrou que a avaliação psicológica feita em João Arcanjo Ribeiro enquanto ele estava preso na Penitenciária Central do Estado (PCE) revela que ele é um psicopata.

"Não há outra pessoa que tivesse interesse de ceifar a vida de Sávio Brandão além de João Arcanjo. Essas pessoas são inteligentes. Não pensem que elas são burras. Psicopatas não são loucos, doentes mentais. Eles não são considerados loucos, não sofrem de delírios e alucinações ou sofrem de intenso sofrimento mental, como depressão, pânico. Seus atos criminosos provem de um raciocínio frio, calculista, incapazes de ver os seres humanos como pessoas com emoções. Certamente cada um de nós conhecerá uma dessas pessoas na nossa existência. Esse foi o perfil feito pelo psiquiatra quando Arcanjo estava na PCE, comparando-o com Fernandinho Beira-Mar. São pessoas educadas, inteligentes e polidas. Que se penalizam apenas com seu próprio sofrimento, não com o dos outros", afirmou.

O promotor lembrou aos jurados sobre os quesitos que devem ser julgados.

Segundo ele, primeiro deve ser respondido se houve o crime de homicídio. O segundo quesito é se outra pessoa foi responsável pelo crime. O terceiro, é se João Arcanjo participou da morte.

"Não há outra pessoa que tivesse interesse de ceifar a vida de Sávio Brandão além de João Arcanjo"
Na sequência, os jurados devem avaliar as qualificadoras sobre os motivos que levaram ao crime e se o crime foi cometido de forma a dar chances da vítima se defender.

Gadelha disse que espera que os jurados façam justiça e deem resposta para a sociedade. Ele passou, então, a fala para o assistente de acusação, o advogado Clóvis Sahione.

Assistente de acusação mostra reportagens da Folha para jurados (Atualizado às 17h14)


O advogado Clóvis Sahione, contratado pela família de Sávio Brandão, começou elogiando o juiz, promotor e o advogado Zaid Arbid. Em seguida, ele questionou: “Será que todos os jornais, a Justiça, todos erraram, todos blefaram, foi um mero engano? Está em jogo, jurados, a credibilidade da Justiça de Cuiabá. O que nós estamos fazendo o quê aqui? Estão todos errados? A Polícia Federal, a Polícia Civil, o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual, todos os grandes jornais, todos se enganaram?”.

Ele relembrou que os demais participantes do crime, inclusive o executor, já foram condenados e que, agora, deve-se punir o mandante.

Sahione disse que houve até um benefício para a cidade, infelizmente, com a morte de Sávio Brandão.

“O juiz federal até comentou que houve redução de crimes após a morte de Sávio e a prisão de Arcanjo”, disse.

A estratégia para convencer o júri foi mostrando as manchetes de jornais que apontavam que Arcanjo perderia R$ 15 milhões porque a usina hidrelétrica denunciada em matérias da Folha não entraria em funcionamento.

Sahione fala sobre filho de Sávio Brandão na tentativa de convencer os jurados (Atualizado às 17h20)


“Há um menino de 10 anos de idade que não conheceu seu pai porque, dois meses antes dele nascer, seu pai foi assassinado. E ele pergunta à mãe todos os dias: quem matou o meu pai? E respondem: o cabo Hércules. E quando ele perguntar: porque mataram o meu pai, se ele não o conhecia? E como morreu Sávio Brandão? Na porta do trabalho, no asfalto", disse.

Advogado de família de Sávio Brandão chama Arcanjo de "covarde" (Atualizada às 17h21)


O assistente de acusação, Clóvis Sahione, chamou Arcanjo de "covarde" por não ter procurado os meios legais ou reagido pessoalmente às matérias publicadas pelo jornal de Sávio Brandão.

"Eu entendo um homem que reage, que não vai à Justiça e que decide resolver à sua maneira. Mas não entendo um covarde que manda matar, que contrata alguns psicopatas para formar uma quadrilha", afirmou.

Sahione ressalta os "quatro guerreiros" do processo de Arcanjo (Atualizada às 17h29)


Sahione destacou que o processo movido contra Arcanjo teve "quatro guerreiros": o delegado Luciano Inácio, o promotor João Gadelha, a mãe e a irmã de Sávio Brandão.

"Doutor Luciano: queria que toda a cidade do país tivesse um homem como ele, íntegro e moral. O segundo é João Augusto Veras Gadelha, que não deixa dúvidas. Ele demonstra, prova aquilo em que ele acredita, faz o orgulho da cidade, do Ministério Público", disse.

Ao falar da mãe de Sávio Brandão, que tem mais de 80 anos de idade, Sahione destacou a presença dela em todas as fases do processo.

"A dor de perder um filho deve ser muito grande. Deve machucar muito. Se ele morre de morte natural, a saudade continua, a ausência é sentida, mas aquilo é compreendido por ela. Quando morre de acidente, também entendemos que foi um ato de imprudência. Mas, jurados, quando se trata de um assassinato dessa maneira, onde se espera 11 anos, participando de interrogatórios, acompanhando depoimentos de um e de outro? Ela sempre vinha. Ela não descansou nunca”, afirmou.

Ele destacou que a irmã de Sávio Brandão "chora a ausência do irmão todos os dias".

"Quem matou, não sabe até agora o que matou", afirmou, lendo, na sequência, uma carta escrita por Agrícola Paes de Barros, que encerrou a sua sustentação oral.

Zaid Arbid dá início à sustentação de defesa de Arcanjo (Atualizada às 17h37)


Após um intervalo de cinco minutos, é a vez do advogado de Arcanjo, Zaid Arbid, para que faça a sustentação oral de defesa do réu.

Redação: LISLAINE DOS ANJOS E DÉBORA SIQUEIRA
Share on Google Plus

Assuntos Relacionados

0 comentários :

Postar um comentário

Deixe seu Comentario