Os preconceitos e os medos na vida de um transexual em MT

O cabelo de tamanho médio e as roupas femininas são escondidas para dar lugar a um rapaz. A dor de não se reconhecer da forma como nasceu fez com que a jovem resolvesse se transformar em Valentim.

A escolha do nome, segundo o estudante, é pelo significado: força e saúde. Hoje com 24 anos, Valentim passou a se aceitar como homem há menos de um ano, após diversas tentativas de enquadrar-se no que considera o "padrão da sociedade".

Os pais de Valentim, que prefere não ser identificado, são frequentadores assíduos da Igreja Católica e não sabem da vida secreta do filho, que eles acreditam ser "uma jovem homossexual". 

“Sei que isso é uma traição, mas faço por amor. Eles ainda não estão preparados para ouvir a verdade, então, estou protegendo-os. Em casa, eu sou a ‘filha’ deles. Fora de casa, principalmente na faculdade, porque neste semestre consegui mudar meu nome no sistema, sou Valentim”, contou.

Valentim afirmou que, quando criança, se sentia diferente das outras meninas - por não possuir os mesmos traços e desejos - e só se descobriu após ter estudado mais sobre o assunto.

“Desde criança, eu sempre soube que tinha algo diferente comigo. Não que eu soubesse o que era. Eu só tinha a sensação de nunca me encaixar em nenhum lugar", disse.

"Desde criança, eu sempre soube que tinha algo diferente comigo. Não que eu soubesse o que era. Eu só tinha a sensação de nunca me encaixar em nenhum lugar"

O jovem relatou ter tido uma infância relativamente normal, mas, quando completou 10 anos, "a ficha caiu".

"Brinquei de boneca a esconde-esconde. Nunca me privei de fazer nada por ser algo de menino ou de menina. Quando eu tinha uns 10 anos e as meninas começaram a falar dos meninos por quem estavam apaixonadas, foi quando eu percebi que algo de fato estava errado”, relembrou.

Processo de transformação


Apesar de ainda não ter dado início ao processo de hormonização, para que seu corpo adquira características masculinas, Valentim já se considera transexual.

Jefferson Eduardo/MidiaNews
Valentim ainda não deu início ao processo de hormonização, mas pretende começar ainda neste ano
A princípio, porém, ele conta que negava o assunto e possuía preconceito em relação ao tema, que até então desconhecido para ele.

De acordo com Valentim, o primeiro passo para a descoberta foi encarar a homossexualidade.

“Eu escondi por mais de 20 anos o fato de que eu sentia atração por mulheres. Primeiramente, eu escondi por minha causa. Quando eu tinha 12 anos, minha família entrou de fato para a Igreja Católica e eu sempre ouvi que homossexualidade era uma abominação. Então, eu só tinha a escolha de esconder isso”, afirmou.

Em razão do medo que sentia, o rapaz pensou em virar freira, chegando, até mesmo, a frequentar ações religiosas nas quais passou dias servindo à fé, que acreditava ser o caminho para livrar-se do "mal", que considerava ser a sua orientação sexual.

“O meu pensamento era: se Deus vai me mandar para o inferno, então a única forma de conseguir minha salvação seria trabalhar para Ele a minha vida toda. É claro que não deu certo”, contou.

Aceitação


Após aceitar-se como homossexual, Valentim teve a primeira namorada. Durante o relacionamento, o jovem percebeu que poderia ser diferente das moças. 

“Minha concepção, na época, era de que troca de sexo envolve genital. Eu estava bem com o meu sexo. A minha namorada era lésbica e eu percebi que eu era diferente até mesmo das lésbicas. Foi aí que as dúvidas começaram”, relembrou.

Atualmente, o jovem lidera um movimento de homens transexuais em Mato Grosso, o Instituto Brasileiro de Transmaculinidades (Ibrat-MT). 

Ele pretende dar início ao processo de hormonização ainda neste ano, pós participar de um encontro regional, onde irá apresentar um projeto de áudios contando sobre a sua relação com as descobertas sexuais feitas ao longo da vida. 

"Há momentos em que se inicia um tratamento com hormônios, que precisam ser tomados regularmente, e um tempo depois não tem médico na rede pública"
O processo de hormonização pode ser feito por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) ou de modo particular. Pelo fato dos altos valores do tratamento, o sistema público de Saúde é o mais solicitado pelos transexuais. 

Valentim porém, afirma que as dificuldades da Saúde Pública também afetam os transexuais.

“Há momentos em que se inicia um tratamento com hormônios, que precisam ser tomados regularmente, e um tempo depois não tem médico na rede pública. Por causa disso, muitos transexuais, que já deram início ao tratamento e não podem parar, tomam os hormônios por conta própria”, detalhou o jovem. 

A prática de tomar hormônios por conta própria faz com que muitos transexuais sofram consequências, como necrose na perna, podendo chegar à amputação.

Aceitação facilitada
Em contrapartida às dificuldades encontradas por Valentim, Junior Fávaro, de 38 anos, não teve grandes problemas familiares ao revelar que era transexual e iria tornar-se homem.

O rapaz trabalha como sushiman em uma padaria da Capital e afirma não sofrer preconceito no local.

No entanto, ele conta que teve de exigir que fosse chamado pelo nome masculino.

Júnior ainda não começou o processo de transição, porém pretende dar início ao tratamento o quanto antes.

"Eu estou usando colete para esconder os seios. Há dois anos, deixei de ser lésbica e passei a ser transgênero. Darei início ao tratamento em breve", disse.

"Quando a pessoa já fez a cirurgia está psicologicamente em outro gênero sexual, não é digno que a Justiça não respeite o seu direito enquanto pessoa humana a sua identificação"
Registro social

Além da luta pelo preconceito que cerca o tema e da necessidade de tratamento com hormônios e, inclusive, com a cirurgia para a mudança de sexo, os transexuais ainda precisam recorrer à Justiça para garantir a alteração do seu nome, a fim de que a transformação seja completa.

A defensora pública Danielle Daltro Dorileo atua há pelo menos cinco anos em defesa de transexuais que desejam alterar seu registro civil, em Cuiabá.

Segundo ela, atualmente, cerca de 4% das pessoas que ingressam com a ação de Retificação do Registro Civil são transexuais - em sua maioria, pessoas que nasceram como homens, mas que se enquadram no gênero feminino.

De acordo com a defensora, o ingresso da ação somente é possível àquelas pessoas que já se encontram na fila para passar pela cirurgia de troca do órgão sexual, e o tempo do processo varia de caso a caso.

"Já houve casos em que conseguimos a retificação em cinco meses, sem nem mesmo passar por julgamento. No entanto, tem processo que já dura três anos tramitando na Justiça, sem resultado", afirmou.

Conforme o juiz auxiliar da Corregedoria do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Antônio Peleja, a judicialização é necessária porque não há ainda, na Justiça, uma norma concreta que disponha sobre o assunto, por se tratar de um tema novo no meio jurídico.

"É importante ressaltar que este pedido vem do direito da dignidade humana. Quando a pessoa já fez a cirurgia está psicologicamente em outro gênero sexual, não é digno que a Justiça não respeite o seu direito enquanto pessoa humana a sua identificação", afirmou.

Segundo Peleja, nessa ocasiões, cabe ao juiz agir como um "ator diferenciado", uma vez que "ele tem o poder de interpretação em consonância com as novas realidades sociais".

"Diante disso, o juiz vai conceder a retificação dando segurança jurídica, verdade registrada e a averbação", completou.

"Os empresários precisam abrir espaço para os transexuais e travestis trabalharem. Se a pessoa quiser fazer programas, tudo bem. Mas, também, deveria haver oportunidade de emprego para os que querem trabalhar no mercado formal"
Travesti ou transexual?

De acordo com a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, identidade de gênero é a percepção que a pessoa tem de si, como sendo do gênero masculino, feminino.

Pode ou não corresponder ao sexo de nascimento e inclui o senso pessoal do corpo, que pode ser modificado, e outros aspectos.

Os transexuais têm a identidade de gênero oposta ao sexo biológico e buscam harmonizar identidade, sexo e corpo, por meio de tratamentos hormonais, aplicações de silicone e/ou cirurgia de redesignação sexual (esta nem sempre é priorizada, pois muitos transexuais, mesmo rejeitando seus órgãos genitais, não desejam submeter-se a um procedimento cirúrgico).

Ainda conforme a Defensoria, os travestis também têm a identidade de gênero contrária ao sexo biológico, e assumem diferentes papéis perante a sociedade. 

A imagem corporal é modificada, mas não há interesse na cirurgia de redesignação sexual, sendo que o órgão genital é utilizado normalmente nas relações sexuais.

O antropólogo Moisés Lopes, pesquisador da UFMT, estuda assuntos relacionados à sexualidade e políticas públicas desenvolvidas para os gêneros. 

Ele afirma que os transgêneros ou transexuais possuem o desejo de retirar seus órgãos sexuais. Os travestis, porém, não possuem questionamentos em relação às condições biológicas.

“A questão como eles [travestis e transgêneros] se identificam é o fator principal para defini-los. Os travestis se identificam como sendo do sexo ideológico. São questões mais relacionadas à orientação sexual”, afirmou.

Lopez ainda relata que a questão de ser travesti ou transexual é muito mais profunda e é necessário um estudo de cada caso para que se chegue a uma definição.

Travesti enfrentam preconceitos semelhantes

Porém, nem todas as pessoas que realizam modificações no corpo para ficarem parecidas com o sexo oposto são consideradas transexuais. 

A jovem Brenda Lima, de 26 anos, nunca teve o desejo de livrar-se do órgão genital e afirma ser uma característica que lhe faz bem.

Bruno Cidade/MidiaNews
Brenda Lima, 26 anos, se considera travesti, mas já fez algumas mudanças no corpo e critica o preconceito que a classe sofre

Em razão disso, ela se considera travesti. A moça, atualmente desempregada, também é vítima de preconceito e sofre para encontrar emprego.

“Os empresários precisam abrir espaço para os transexuais e travestis trabalharem. Se a pessoa quiser fazer programas, tudo bem. Mas também deveria haver oportunidade de emprego para os que querem trabalhar no mercado formal”, reclamou.

A jovem pretende alterar o nome de batismo para o substantivo utilizado socialmente. A questão do nome masculino no Registro Geral ela alega ser uma das situações mais constrangedoras do cotidiano. 

“Ser travesti é uma militância 24 horas. Pretendo mudar o meu nome no RG futuramente, porém ainda não estou por dentro do assunto porque sei que não é algo barato”, lamentou.

Políticas públicas

No final de 2013, a Câmara Municipal de Várzea Grande aprovou um projeto de lei que institui o direito aos travestis e transexuais de serem chamados pelo nome social em órgãos públicos e estabelecimentos privados.

Cuiabá, porém, não possui a mesma lei. 

No entanto, em abril de 2014, a Prefeitura de Cuiabá aprovou a criação do Conselho Municipal de Atenção à Diversidade Sexual em Cuiabá. Até o momento, a entidade ainda não saiu do papel.


Fonte: Midia News
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