Após 37 anos, pai confessa aos filhos que matou a esposa

Na madrugada de 25 de janeiro de 1982, os seis filhos de Pierina Carraro Cella, na época com 42 anos, veriam a mãe pela última vez. Naquele dia ela saiu de Colombo (SC), onde a família morava, para uma viagem a convite do marido R.E.C, então com 41 anos. O destino: São Carlos (SC), onde existe uma estação de águas termais e medicinais.

A Pierina nunca mais voltaria para casa e os filhos foram informados pelo pai de que ela tinha sido assassinada durante um assalto na estrada, versão que sempre foi motivo de desconfiança. A reportagem do MidiaNews tentou entrar em contato com a defesa de R.E.C, mas não obteve retorno até a publicação.

Na terça-feira (20), após três meses de intensa investigação, os filhos de Pierina foram até uma Delegacia de Lucas do Rio Verde (a 360 km de Cuiabá), onde moram atualmente, com uma gravação de áudio em que o pai confessava o assassinato da mulher. 

Ao MidiaNews, um dos filhos de Pierina, Genir Cella, conta que a mãe havia pedido o divórcio após descobrir que R.E.C. tinha um caso com a empregada da família, então com 19 anos, e com quem ele é casado atualmente. 

Na época, Genir tinha 15 anos e, por conta da idade, não ficou sabendo sobre os comentários que pairavam pela cidade. De acordo com ele, a maioria dos moradores de Quilombo falava que o pai dele havia matado a esposa. 

Apenas neste ano, os seis filhos conseguiram reunir provas do que havia acontecido com ela de fato. Durante a investigação, eles chegaram a ouvir vizinhos, médicos e enfermeiras que tiveram contato diretamente com a mãe. 

"No mesmo dia em que ela morreu, já falavam que ele havia matado a mulher, mas éramos crianças, não ficamos sabendo desses comentários. Imagina, naquela época, no interior, todo mundo inocente, nem televisão tinhámos", lembra. 

A morte da mulher chocou parte dos moradores do Município, que tinha pouco mais de três mil habitantes. 

Genir conta que a mãe já havia chegado a pedir a separação algumas vezes, mas quando ela dizia ao marido que queria o divórcio, ele ameaçava se matar. Até que um dia, conforme conta o filho, uma vizinha comentou com ela sobre o caso entre o pai e a empregada. 

"Ela falou para a vizinha que, então, era melhor que ela morresse, mas que ele ficasse para cuidar dos filhos. Já estava sofrendo muito. As vezes ela mandava a empregada embora, mas ele fazia a mãe se humilhar perante ela, para que ela voltasse a trabalhar em casa", relata. 

Na última vez em que Pierina pediu para que a empregada deixasse a casa, R.E.C teria afirmado à mulher que "quem mandava era ele".

Genir também contou que ele e os irmãos descobriram que, antes de matar a mulher, o pai teria dito à amante que "resolveria" o assunto. 

Crime premeditado 

No dia do assassinato, conforme consta no boletim de ocorrência registrado pelos seis filhos de Pierina, quando o casal estava a cerca de 8 km da residência deles, R.E.C teria descido do veículo alegando que um dos pneus estava furado. 

Ele teria ido até o lado do passageiro, pegado uma pedra e desferido golpes na cabeça da mulher. Em seguida, tirado Pierina do veículo e a arrastado para uma valeta na estrada, momento em que teria dado um tiro no coração dela, à queima roupa. 

"Depois, como ela ainda se debatia, pegou novamente uma pedra e desferiu quatro pedradas na cabeça dela, deixou a cabeça esmagada como uma espoja, segundo o médico declarou recentemente. Colocou [Pierina] de volta no carro, pegou uma pedra e jogou-a contra o pará-brisas. A pedra ficou dentro do veículo para consumar a simulação do homicídio", diz trecho do BO registrado pelos filhos na Delegacia de Lucas. 

Após o homícidio, o homem ainda teria usado um canivete para fazer cortes na própria barriga e conseguir simular que havia sido esfaqueado. Conforme a denúncia, R.E.C. ainda teria confessado que deu um tiro em si mesmo. 
Genir Cella/Arquivo Pessoal
PIERINA
Seis filhos de Pierina denunciaram o crime em uma delegacia de Lucas do Rio Verde

Conforme conta Genir, ele e os irmãos chegaram a questionar a versão algumas vezes, porém o pai dizia apenas que "estava apaixonado pela empregada". Fato que desencadeou ainda mais a desconfiança deles. 

O homem também mantinha a versão do assassinato durante um assalto na estrada. De acordo com Genir, um processo foi aberto, na época, porém, em menos de uma semana, foi fechado. Para ele, a investigação falhou. 

"Hoje um crime desses é descoberto no primeiro dia. Quando perguntávamos 'Você matou a mãe?', ele dizia que estava apaixonado. Então confirmava, mas não tinhámos uma confissão dele", recorda. 

Confissão do pai 

As enfermeiras que tiveram contato com o corpo de Pierina relataram aos filhos que um assaltante não agiria daquela forma, deixando a cabeça da mulher completamente esmagada e o marido apenas com alguns arranhões. Após investigarem e coletarem depoimentos de pessoas daquela época que ainda são vivas, os irmãos decidiram marcar uma reunião com o pai em Lucas, onde todos moram atualmente. 

De acordo com Genir, o pai chegou a negar o assassinato três vezes antes de confessar. O filho afirma que a preocupação do pai era com a própria imagem. Conforme ele, naquela época não se ouvia falar em divórcio e a separação manchava o "nome da família". 

"Ele ficou mais de quatro horas negando. A preocupação dele era só com a imagem. Ele mora em Lucas do Rio Verde há mais de 24 anos e eu há 33. Ele passava outra imagem para as pessoas", conta. 

Genir lembra que a última memória da mãe foi vê-la desfigurada no caixão e afirma que é incapaz de descrever o sofrimento de crescer sem a figura materna. Apesar disso, ele e os irmãos nunca tiveram intenção de colocar o pai na cadeia, mas de elucidar o crime, que já prescreveu há 18 anos.  Em razão disso, R.E.C não pode ser processado ou preso.

"Acho que ele não tem mais nada para explicar, depois que ele confessou, foram três confissões, contou como aconteceu tudo. Repetiu três vezes sem derramar uma lágrima, nenhum sentimento, zero", ressalta. 

Ele diz que ainda não sabe se um dia será capaz de perdoar o pai e, por enquanto, preferiu cortar relações. 

Canonização de Pierina 

Genir conta que ele e os irmãos estão aliviados em terem conseguido colocar um ponto final no mistério que envolvia a morte da mãe. Para ele, a confissão era algo que eles "deviam à sociedade", já que, na época, outras pessoas chegaram a ser suspeitas do crime. 

Emocionado, o filho conta que desde o final de semana alguns moradores de Quilombo têm enviado fotos do túmulo da mãe repleto de flores. A família também está tentando iniciar um processo de canonização da vítima para enviar ao Vaticano. 

"Já tiveram comprovações de médicos de que ela [Pierina] já fez mais de dois ou três milagres. A pessoa orou para ela e o médico comprovou o milagre. Estamos encaminhando com padres e via Vaticano. Quem sabe um dia", imagina Genir.

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